Uberlândia 134 anos: trilhos para a prosperidade
Estradas de ferro e outras modernidades formaram o alicerce para receber as riquezas do paĂs
Primeira estação da Mogiana em Uberlândia - Arquivo Público da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo
Por isso, entre o fim do sĂ©culo 19 e inĂcio do sĂ©culo 20, as ferrovias no Brasil eram sinĂ´nimo de modernidade. Por meio delas, foi realizado um extenso escoamento agrĂcola, em especial do cafĂ©, saindo do interior em direção ao litoral. Por esse motivo, as cidades que tinham os trilhos perpassando por seu entorno, ou mesmo dentro de seus limites, eram privilegiadas com a riqueza e tráfego de pessoas.
Em 1888, a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro do munĂcipio de Campinas, no interior de SĂŁo Paulo, estava desenvolvendo um plano de ligação de SĂŁo Paulo com Goiás, passando por Minas Gerais, chamada de “Linha do CatalĂŁo”. O nome se deve ao fato de a linha ter a pretensĂŁo de ser finalizada na cidade de mesmo nome do interior goiano.
EstratĂ©gia polĂtica
A linha atendia as cidades de Sacramento, Conquista e Uberaba e tinha planos de passar por mais uma cidade mineira antes de chegar atĂ© Goiás. “A histĂłria conta que a estação da Mogiana, inicialmente, nĂŁo viria para Uberlândia, nem estava cogitado de ela passar por aqui. A ideia de alcançar o estado de Goiás era passar por uma dessas cidades: Nova Ponte, Estrela do Sul, Miraporanga ou Monte Alegre”, explica ValĂ©ria Maria Queiroz Cavalcante Lopes, diretora de MemĂłria e PatrimĂ´nio HistĂłrico da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.
Foi por meio da percepção do coronel JosĂ© TeĂłfilo Carneiro, filho de dona Francisca Alves Rabelo, viĂşva de JoĂŁo Pereira da Rocha, o primeiro a fixar residĂŞncia nesta regiĂŁo, que Uberlândia entrou para a lista de possĂveis municĂpios a serem considerados para receber os trilhos da Mogiana. O coronel Carneiro, que era membro da Guarda Nacional, que naquele perĂodo correspondia a um cargo de chefe polĂtico, ao saber da ampliação dos trilhos para outra cidade mineira, apressou-se e viajou atĂ© Campinas com um rascunho, que ele mesmo desenhou, mostrando a disposição do caminho do trem passando por Uberlândia, com o intuito de convencer os responsáveis pela Mogiana a trazerem o Ăcone da modernidade para o municĂpio.
Um engenheiro da Mogiana foi enviado, atĂ© a entĂŁo Uberabinha, e avaliou a área para a possĂvel construção da ferrovia. De acordo com documentos do Arquivo PĂşblico Municipal, apĂłs a análise do profissional, a Companhia definiu que a cidade receberia os trilhos da Mogiana. AlĂ©m disso, o mesmo engenheiro foi contratado pelas elites locais para desenhar a planta de uma cidade nova considerando a importância da ferrovia.
Baseado na posição dos trilhos, o atual bairro Fundinho, que atĂ© entĂŁo compreendia todo o Arraial, ficou conhecido como “cidade velha” e toda a extensĂŁo entre o Jardim PĂşblico, hoje Praça Clarimundo Carneiro, atĂ© a estação de trem se transforma na “cidade nova”. O engenheiro, entĂŁo, desenhou seis largas avenidas que ligavam a cidade velha atĂ© a estação, que hoje correspondem Ă Cipryano Del Fávero, JoĂŁo Pinheiro, Afonso Pena, Floriano Peixoto, Cesário Alvim e JoĂŁo Pessoa.
“Ter a Mogiana em nossas terras significava que o maior Ăcone de modernidade em transportes estava aqui. Para se ter uma ideia, a importância da ferrovia era tanta, que o crescimento de Uberlândia passou a ser estrategicamente guiado para o rumo dos trilhos, de forma que a cidade ficasse prĂłxima do trem, com o intuito de facilitar a chegada e saĂda de passageiros.
O tripé definitivo do progresso
Entretanto, de acordo com a diretora de Memória e Patrimônio Histórico, apesar do incontestável valor da Mogiana, tanto no transporte de pessoas como no itinerário de mercadorias, ela não era capaz de sozinha, fazer a cidade crescer em larga escala.
Por esse motivo, Fernando Vilela, vindo de Ituiutaba, montou a Companhia Mineira de Auto Viação Intermunicipal em 1912. Ele ousadamente criou a atual BR-365, primeira estrada de veĂculos automotivos do Brasil, que ligava o estado de Goiás diretamente com a estação da Mogiana de Uberabinha, utilizando a ponte Afonso Pena, sobre o rio ParanaĂba, para atravessar os estados, sem necessitar de utilizar as balsas que atrasavam o percurso. “Esse tripĂ©: ferrovia, estradas e a ponte Afonso Pena, fez um funil para que a riqueza de Goiás e Mato Grosso passassem por aqui”, afirma.
Por meio das estratĂ©gias e a vontade de ser grande e moderno, dessas pessoas que ainda hoje sĂŁo homenageadas nos nomes das ruas e praças de Uberlândia, que o municĂpio teve a oportunidade de se desenvolver desenfreadamente. “Uberlândia sempre teve pessoas importantes em postos chaves do governo federal e estadual, por isso existia uma gerĂŞncia polĂtica forte de concretizar no municĂpio projetos relevantes que transformaram esta cidade na maior da regiĂŁo”, afirma ValĂ©ria Queiroz.
Já na dĂ©cada de 1970, a estação da Mogiana teve sua localização alterada, seus trilhos se dirigiram para uma área atĂ© entĂŁo descampada com intuito de apenas levar cargas, deixando o transporte de pessoas a cargo dos modernos automĂłveis. Atualmente, o local corresponde ao terminal central do municĂpio.
As informações que constam no texto foram retiradas do livro “Uberlândia: histĂłrias por entre trilhas, trilhos e outros caminhos”, disponĂvel na Biblioteca Municipal, documentos do Arquivo PĂşblico Municipal e entrevista com a Diretora de MemĂłria e PatrimĂ´nio HistĂłrico da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.





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